A IA vai roubar meu emprego, mas primeiro preciso revisar o PR dela

No começo do ano, eu tinha certeza de que a inteligência artificial ia acabar com o mundo.

Não no sentido metafórico de “essa ferramenta vai mudar o mercado”. Na minha cabeça, o roteiro já estava completo: a IA assumiria todos os empregos, dinheiro deixaria de fazer sentido, seres humanos se tornariam obsoletos e nós, engenheiros, seríamos os primeiros a rodar. O toque de ironia seria sermos substituídos justamente pelos sistemas que ajudamos a construir e manter.

Eu não sou muito de paranoia ou teoria da conspiração. O problema é que tenho uma imaginação bastante vívida e, de vez em quando, ela decide dirigir sem habilitação.

Quando escrevi sobre por que estou crescendo o HAID em público, mencionei que tinha medo da IA e do que ela faria com o meu trabalho. Este é o texto que eu prometi naquela ocasião.

Ou, pelo menos, a minha visão de hoje. Amanhã aparece um modelo novo e eu volto aqui fingindo que nunca disse nada.

O pânico passou. A quantidade de coisas pra aprender, não

Depois de algum tempo, a poeira baixou. Pelo menos um pouco.

Desenvolvedores já trabalham num dos mercados mais dinâmicos que existem. Toda semana aparece um framework, uma linguagem, uma biblioteca ou uma ferramenta que, segundo alguém no X, torna tudo o que você aprendeu até ontem completamente inútil.

Estamos acostumados a estudar. Faz parte do trabalho.

A IA, porém, não simplificou essa esteira. Ela colocou outra esteira em cima. Agora precisamos entender como trabalhar com agentes, como dar contexto, como organizar tarefas, quais modelos existem, no que cada um é bom e qual deles escolher. Quando você termina de comparar, provavelmente já lançaram outro.

Era pra ficar mais fácil. De algum jeito, ficou mais fácil e mais difícil ao mesmo tempo.

A minha primeira estratégia foi me achar especial

Continuei usando IA intensamente e comecei a reparar que alguns engenheiros ao meu redor mal tinham experimentado essas ferramentas.

Minha reação foi muito humana e nada nobre: “beleza, talvez eu ainda tenha emprego”.

Eu me considero um bom engenheiro. Estudo, tento acompanhar as mudanças e já estava usando IA bastante. Por algum tempo, imaginei que essa vantagem me protegeria. Se alguém fosse cortado, seriam os outros, não eu.

É uma linha de raciocínio confortável. Também é uma linha de raciocínio com prazo de validade.

Saber usar a ferramenta pode criar uma vantagem agora, mas a ferramenta continua ficando mais fácil de usar. O diferencial não pode ser apenas saber conversar com ela melhor do que a pessoa da mesa ao lado.

Produto e engenharia estão começando a virar o mesmo trabalho

Então comecei a perceber outro movimento: as fronteiras entre produto e engenharia estavam ficando menos claras.

Essa parte me animou. Eu gosto de produto. Já construí vários projetos paralelos, tentei criar startups e, mais recentemente, precisei parar de empilhar funcionalidades aleatórias no HAID para encontrar uma direção de verdade.

Se escrever código ficou mais barato e rápido, escolher o que construir ganhou ainda mais peso. Entender o problema, conversar com pessoas, definir prioridades, enxergar tradeoffs e tomar decisões de arquitetura passam a fazer parte do mesmo pacote.

Talvez o engenheiro não desapareça amanhã. Talvez ele vire uma mistura ainda mais estranha de engenheiro, gerente de produto, arquiteto, pesquisador e babá de robô.

Eu consigo me imaginar nesse papel. A pergunta desconfortável é: por quanto tempo ele continuará sendo um papel humano?

E se a linguagem de programação for só uma fase?

Tenho uma ideia meio maluca, e não é exatamente um futuro pelo qual estou torcendo: se continuarmos programando com IA, talvez linguagens de alto nível deixem de ser necessárias para boa parte do trabalho.

Não estou dizendo que entender código perdeu importância. Acho justamente o contrário. Ler código, reconhecer uma abstração ruim, antecipar problemas e validar comportamento ficou mais importante. O que pode perder importância é escrever cada linha manualmente.

Hoje usamos linguagens pensadas para que humanos consigam expressar instruções e máquinas consigam executá-las. Mas já existem vibecoders e até desenvolvedores experientes enviando PRs sem sequer olhar o próprio código. Se esse comportamento continuar, parece inevitável que alguém pergunte: pra que manter uma representação feita para humanos que não estão mais lendo?

Não quero que isso aconteça. Quero que a gente continue entendendo o que coloca em produção. Só consigo imaginar um futuro em que a maior parte do código seja criada por máquinas e, por consequência, surjam representações otimizadas para elas, enquanto nós ficamos cada vez mais distantes da implementação.

Isso ainda parece distante. Para confiar nesse nível de abstração, precisamos de ferramentas, ambientes, testes, observabilidade e mecanismos de verificação muito melhores.

Até lá, por favor, revise o seu PR. Rode o projeto localmente. Veja se a aplicação pelo menos sobe antes de pedir revisão. E, se você não entendeu o código que está enviando, peça ajuda.

Estamos todos aprendendo, mas produção não precisa aprender junto com a gente.

Engenheiro numa sala de controle revisando enquanto um pequeno robô monta um sistema de blocos interligados
O trabalho pode sair do teclado e ir para a sala de controle. A responsabilidade continua do lado de cá.

A conta ainda precisa fechar

Existe outra incerteza enorme nessa história: quanto tudo isso realmente custa e quem vai pagar a conta no fim.

Ainda não sabemos se existe uma bolha, quando ela poderia estourar ou como o preço dessas ferramentas vai chegar ao usuário final. Se o capital ficar mais caro e os serviços deixarem de absorver parte do custo, o acesso pode ficar mais restrito. A adoção desaceleraria e uma tecnologia vendida como democratizadora poderia aumentar ainda mais a distância entre quem consegue pagar e quem fica de fora.

Pode acontecer o oposto. Os modelos podem ficar menores, mais eficientes e mais baratos. A infraestrutura pode evoluir. A concorrência pode derrubar preços.

Eu não sei qual caminho vence. Qualquer pessoa que diga saber provavelmente também tem uma newsletter pra vender.

Quem está começando pode pagar a maior parte dessa conta

É aqui que a minha preocupação sai do meu próprio emprego e vai para quem ainda está tentando entrar na área.

Faz tempo que trabalho principalmente com equipes de engenheiros seniores. Não acompanho de perto a realidade atual das vagas júnior, então não quero inventar uma fotografia do mercado que eu não tenho.

Mas consigo enxergar o risco: se empresas esperarem que uma pessoa com IA produza o que antes exigia uma equipe maior, onde alguém ganha a experiência necessária para se tornar sênior?

É fácil responder que iniciantes podem usar IA para aprender. Podem mesmo. Mas essa opinião não nasceu com a IA. Em abril de 2020, quando escrevi o guia sobre como começar a aprender JavaScript, eu já defendia que a melhor forma de aprender era ter um projeto concreto e colocar a mão na massa. A IA pode acelerar o caminho, mas ainda não encontrei um jeito melhor de aprender do que construir alguma coisa de verdade.

Só que até aprender a aprender exige uma base. Saber formular uma pergunta, desconfiar de uma resposta convincente, separar uma explicação boa de uma alucinação e persistir quando nada funciona não são habilidades distribuídas igualmente.

Se entrar em tecnologia já dependia de tempo, educação e acesso, adicionar uma assinatura mensal e uma nova camada de conhecimento pode tornar esse caminho ainda mais desigual.

Minha conclusão temporária

No começo do ano, eu via uma corrida em que a IA estava na frente e nós só tentávamos alcançá-la.

Hoje penso que correr mais rápido talvez seja a métrica errada. O nosso valor, por enquanto, está menos na velocidade de produzir código e mais na capacidade de decidir, conectar contexto, revisar, assumir responsabilidade e perceber quando a máquina está resolvendo muito bem o problema errado.

Produto e engenharia provavelmente vão continuar se aproximando. Quem conseguir aprender o outro lado pode ganhar algum tempo. Não sei quanto.

Também não sei se a bolha estoura, se programaremos numa linguagem feita para máquinas ou se “engenheiro de software” será um título tão antigo quanto “webmaster”.

Sei apenas que continuar aprendendo ainda parece uma estratégia melhor do que fingir que nada está acontecendo. E revisar o PR antes do apocalipse também não custa nada.

Estes são os meus dois centavos brasileiros sobre um assunto que ninguém me perguntou. Não tenho uma resposta, só uma paranoia um pouco mais organizada.

P.S.: Sim, este artigo foi revisado por uma IA. Seria deselegante não convidar a suspeita principal.